Se a questão do Séc.XX foi "Quem sou eu?", a do XXI é "Quem é você?"




Roman Krznaric é um militante internacional da empatia, habilidade que, segundo defende, pode ser aprendida e é capaz de unir povos de todas as cores, origens, religiões e culturas.


A reportagem é de Juliana Diógenes, publicada por O Estado de S.Paulo, 15-10-18.

Filósofo e membro fundador da The School of Life, Krznaric foi professor de Sociologia e Política na Universidade de Cambridge e na City University. Autor dos best selleres Como Encontrar o Trabalho da Sua Vida, O Poder da Empatia, e Sobre a Arte de Viver, ele está no Brasil para lançar o novo livro Carpe Diem – resgatando a arte de aproveitar a vida.


Na entrevista deu dicas sobre como a empatia é um antídoto para combater preconceitos e superar divergências sociais. Krznaric também comentou o momento de polarização político-ideológica no País, sugerindo que famílias e amigos ouçam para serem ouvidos. "Seja qual for o resultado no segundo turno das eleições, o Brasil será uma sociedade dividida. E as famílias serão divididas. A pergunta é: como você cria e constrói tolerância e respeito?".


Eis a entrevista


De que forma a empatia pode ajudar a criar mudança social, combatendo preconceitos e superando divergências sociais?


Empatia é a habilidade de se colocar no lugar de alguém e ver o mundo através desses olhos. Sempre foi uma ferramenta poderosa para superar os estereótipos e preconceito. Todos nós sabemos que julgamos as pessoas a partir da aparência.

Quando dirigi a organização Oxford Muse, uma das coisas que fizemos foi

estabelecer uma conversa durante refeições. Convidamos pessoas de muitas origens diferentes, ricos e pobres, negros e brancos, judeus e muçulmanos, para almoçar. Em vez de darmos um cardápio de comida, demos um cardápio de conversa, com discussões sobre a vida. Por exemplo: o que você aprendeu sobre as diferentes variedades de amor em sua vida? Ou: você gostaria de ser mais corajoso? Ou: como suas prioridades mudaram ao longo dos anos? A ideia era fazer o oposto a um encontro rápido. Você fala por uma hora, não por um minuto e, dessa forma, você descobre a humanidade em comum. Você vê um pouco de si mesmo na outra pessoa, falando sobre essas grandes questões sobre as quais todos nós pensamos. Todo mundo pensa em amor e morte. É humano. Sempre achei que era muito importante fazer esses tipos de projectos nas comunidades, porque são formas de saltar sobre as divisões sociais.


Outro projecto que me envolvi chama Museu da Empatia, onde desenvolvemos o "uma milha no meu lugar". Cada pessoa era convidada a caminhar com um par de sapatos do seu número, mas que tinha pertencido a um estranho. Talvez fosse de alguém que tinha ficado preso 40 anos atrás, ou de alguém que vivia em uma favela desde criança, ou alguém com problemas de saúde mental, ou uma profissional do sexo. A pessoa então andava por uma milha (cerca de 1,6 km) ouvindo um áudio do dono do sapato contando sobre sua vida, com suas próprias palavras. É muito simples, mas é muito poderoso. É divertido.


Mesmo que faça você chorar, isso pode fazê-lo rir. É tudo sobre tentar desafiar os estereótipos que temos sobre as pessoas. Precisamos fazer um grande esforço para criar uma comunidade. Não é fácil fazer isso quando grande parte da nossa cultura nos faz não conhecer pessoas que são diferentes ou até mesmo odiar

pessoas que são diferentes de nós. Precisamos criar essas situações. Você também pode dizer às pessoas: vá e converse com um estranho uma vez por semana. Isso é uma boa ideia para a empatia. Fale com alguém. Pode ser o cara que vende pão para você cada manhã ou a mulher que está limpando sua casa.


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Deixe sua zona de conforto. Fale sobre as vidas dos outros e sobre sua vida. Partilhem algo. Como indivíduos, podemos fazer isso.

Como colocar em prática o estilo de vida carpe diem – assunto do seu novo livro – em meio a uma sociedade sobrecarregada de informações a todo momento, 100% conectada e cada vez mais ansiosa?

Carpe diem é essa antiga frase latina que vem do poeta romano Horácio. Ele disse: "Mesmo enquanto falamos, o tempo ciumento está fugindo de nós. Colhe o dia, confia o mínimo no amanhã". O que ele está realmente dizendo é que a vida é curta. O tempo está passando. Não vamos ser para sempre. É por isso

que minha camiseta tem morte e liberdade (aponta para a blusa). Se houvesse apenas uma resposta, eu diria: para praticar carpe diem, pense sobre a morte. Precisamos ser criativos na maneira como pensamos sobre a morte. Não tenha medo disso. Gosto da ideia de fazer o que chamo de uma pausa diária para a

morte. Em um momento no dia, você para por alguns minutos e pensa na sua própria morte. Com isso não quero dizer se imaginar no leito de morte. Imagine-se em experiências, situações em que você pensa sobre a falta de vida e o que você quer fazer com esse tempo.


Por exemplo, imagine que você está morto e é convidado para um jantar. Você entra na sala e há todos os outros "vocês" que você poderia ter sido se tivesse feito escolhas diferentes em sua vida. Tem aquele "vo